Salvador Dali é o artista plástico de que toda a gente já ouviu falar. A criatividade excêntrica e provocatória deste catalão do século passado cola-se à memória, desde a figura de bigodes retorcidos em U, à frequência esbugalhada dos olhos a interpelarem-nos a quietude. Dali tem jeito de garoto travesso que dá uns pontapés no establishement.
Virado ao Douro, o Palácio do Freixo é um espaço de luz e história,
Das obras expostas salientamos duas por mera economia de espaço, “Mulher nua a subir a escada” e “Cristo de S. João da Cruz”. Na primeira, uma escultura em tamanho natural, conquista-nos a fidelidade massiva ao feminino, a beleza do corpo agudizada no esforço duma subida ininterrupta e infinita, porque
No “Cristo de S. João da Cruz”, poeta muito apreciado pelo artista, Dali esculpiu um crucificado sem cruz (não confundir com o Cristo de S. João da Cruz pintado a óleo e mais conhecido do grande público). Miniatura fascinante. Sem um suporte a que possa ater-se, Cristo é a própria cruz. E uma solidão escura e comovente emerge daquela figura em oferta ampla; um meio abraço exausto, os joelhos ligeiramente curvados e submissos a confirmar a humanidade de um deus. E, na breve curvatura dos joelhos, um murmúrio, “faça-se em mim segundo a Tua vontade”.
Os desenhos de Dali hão-de ficar para Outubro. Está feito o convite para ver in loco.



