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13.9.07

DALI NO PALÁCIO DO FREIXO



Salvador Dali é o artista plástico de que toda a gente já ouviu falar. A criatividade excêntrica e provocatória deste catalão do século passado cola-se à memória, desde a figura de bigodes retorcidos em U, à frequência esbugalhada dos olhos a interpelarem-nos a quietude. Dali tem jeito de garoto travesso que dá uns pontapés no establishement.


Virado ao Douro, o Palácio do Freixo é um espaço de luz e história, concha aberta a pérolas sedimentadas pelo imaginário de quem assim se subtrai à morte. Mas a exposição do Freixo adenda outro Dali. A mostra que a cidade do Porto exibe até Novembro reparte-se pela escultura e desenho. Ambos surpreendentes. Os tons do bronze esculpido oscilam entre o negro quase total de algumas obras e o brilho doce dos acobreados claros. E, da elegância sinuosa de Dulcineia (a musa de D. Quixote), à governanta autoritária, passando pelo amor inusitado a Gala, sua musa e mulher, que figurou alada e caminhando sobre um relógio de água, se desprende uma ternura subtil, ruptura inesperada com o Dali dos estereótipos.

Das obras expostas salientamos duas por mera economia de espaço, “Mulher nua a subir a escada” e “Cristo de S. João da Cruz”. Na primeira, uma escultura em tamanho natural, conquista-nos a fidelidade massiva ao feminino, a beleza do corpo agudizada no esforço duma subida ininterrupta e infinita, porque em espiral. Por ser todas as mulheres, é uma mulher sem rosto. O fino da cintura a torná-la leve, esforço de pernas diluído pelo caminhar em bicos de pés. E assim são as mulheres.

No “Cristo de S. João da Cruz”, poeta muito apreciado pelo artista, Dali esculpiu um crucificado sem cruz (não confundir com o Cristo de S. João da Cruz pintado a óleo e mais conhecido do grande público). Miniatura fascinante. Sem um suporte a que possa ater-se, Cristo é a própria cruz. E uma solidão escura e comovente emerge daquela figura em oferta ampla; um meio abraço exausto, os joelhos ligeiramente curvados e submissos a confirmar a humanidade de um deus. E, na breve curvatura dos joelhos, um murmúrio, “faça-se em mim segundo a Tua vontade”.

Os desenhos de Dali hão-de ficar para Outubro. Está feito o convite para ver in loco.

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