13.12.07

A geração dependente




A geração de quem anda agora, sensivelmente, entre os 20 e os 30 anos é a primeira desde há várias décadas que não consegue aquilo que antes se tinha como uma certeza: ter acesso a melhores condições de vida que os seus pais.

É a geração dos recibos-verdes, da precariedade laboral e dos baixos salários. Mas é também aquela que apresenta, de longe, habilitações académicas mais elevadas. Fizeram licenciaturas que não lhe abrem portas, mestrados e especializações que não lhes resolvem o futuro. Tiraram cursos e sabem ter capacidades, mas continuam a combater a indiferença que não lhes garante o futuro.

Alguns, com mais sorte, frequentaram estágios na sua (provável e desejada) área profissional. Dos quais, a maioria com sabor a frustração no final do período contratado. Esta parece ser, infelizmente, uma geração com futuro incerto.

Já passaram há muito a idade em que gostariam e precisariam de ter a independência financeira que ainda não conseguiram. Concorrem a trabalhos para os quais se apresentam com habilitações em excesso. A certa altura, acabam por aceitar o que lhes aparecer: trabalho a termo, com más condições, demasiada precariedade e escassa retribuição. Pior que isso, anseiam consegui-lo, se já tiverem responsabilidades familiares. São profissionais da incerteza e do desespero, com futuro adiado.

A culpa não é deles. É essencialmente nossa, que não soubemos antever e prevenir as consequências das dinâmicas sociais e económicas das últimas décadas. E que, durante anos, nos distraímos com questões de somenos importância, que ainda continuam a ocupar demasiado do nosso tempo.

O certo é que, para todos estes milhares de jovens, não soubemos encontrar soluções em devido tempo. E agora, sem muitas soluções à vista e vítimas também da má conjuntura económica actual, ninguém sabe muito bem o que pode ou deve ser feito. Na falta de soluções, aguarda-se por um crescimento económico milagroso que ajude a criar mais empregos, mas que tarda em chegar.

As consequências de tudo isto são mais ou menos previsíveis. E não auguram nada de bom. Ninguém consegue adiar a sua vida e os seus sonhos indefinidamente. E o pior de tudo é que não se vislubram dias melhores. Infelizmente.



7 comentários:

MouTal disse...

Sobre este assunto, li aqui há uns meses uma entrevista com um empresário português, fundador da I Dreams (julgo que é assim o nome),cuja empresa é líder mundial na área das novas tecnologias, e que dava a seguinte explicação:
As nossas escolas e universidades só nos preparam para ser-mos trabalhadores por conta de outrem, não nos preparam nem despertam o espírito empreendedor e da criação da empresa individual.
Portanto todas as medidas económicas falham e continuarão a falhar enquanto essa lacuna não for superada no nosso sistema de ensino.
Eu julgo que o senhor tem carradas de razão.
Claro que há muito a dizer sobre o assunto e certamente o nosso amigo "bordadágua" fará luz para nos iluminar...
Um abraço.

BENFICA FC disse...

Gostei deste post.
Está bem apanhado.
Acrescentaria o seguinte.
É curioso ver como os pais dessa geração são a geração "escrava". Foram escravos dos pais deles e dos sacrifícios que tiveram de fazer e agora são escravos dos filhos e dos sacrifícios que t~em de fazer por eles.
Esta geração, dos 500€, mais do que dependente, é uma espécie de geração dos "desiludidos da vida".

http://benfica-fc.com/slbenfica/

MFQ disse...

Este excelente post vem um pouco na linha de um outro que eu escrevi na anterior versão do AL com o título “A Geração (des)enrascada”. Os problemas mantêm-se com tendência a agudizarem-se.

Muito oportuno o comentário do “Benfica FC”.

MFQ

Caro amigo, infelizmente e principalmente para quem tem filhos ainda em idade escolar, este teu post reflecte a angústia e a antevisão de um futuro que não se prevê nada, mesmo nada, risonho.
A falta de expectativas em termos de emprego, fruto de sucessivos "equívocos" políticos no que concerne às questões económicas, educacionais e por aí fora, conjugando com factores já referidos por ti, criaram esta situação de desemprego, precacridade, baixos salários, etc.
É verdade que somos todos responsáveis, é sempre esta massa chamada povo, que através do voto legitima uns quantos "irresponsáveis", para nos (des)governarem, o que no nosso caso particuar tem sido bem evidente, basta reflectir no País aqui ao lado, para perceber isso mesmo.
Uma das causas fundamentais, a meu ver, prende-se com um total desaproveitamento dos fundos estruturais dos dinheiros comunitários que ano após ano foram "desbaratados" à boa maneira lusa, ao invés de se terem implementado condições estruturais em diversos sectores, para hoje se poder enfrentar este mundo global e de forte concorrência ( aqui um senhor hoje com um alto cargo político teve uma grande dose de culpas)!
À custa de tudo isto, estamos a regredir, veja-se a quantidade de concidadãos a emigrar, com tendência a aumentar e a fazer lembrar o sec. passado, e a sujeitarem-se em alguns casos a situações de autêntica escravatura. Veja-se a quantidade de desempegados que temos, de pessas a viver abaixo do limite da pobreza, do número que recorre ao Banco Alimentar, etc.
Evidências às quais a classe política tenta virar as costas como se não existissem, preferindo discursos demagógicos assentes numa realidade, que só virtualmente pode ser a nossa.
As minhas filhas, provávelmente serão forçadas a emigrar e eu às vezes, muitas vezes até, apetece-me fazê-lo!

Cumprimentos

Marco António disse...

Começaria o meu comentário contando um pequeno episódio, algo brejeiro, que se terá passado durante um acalorado debate político entre dois deputados, um da oposição e um outro defensor acérrimo do governo reinante, e que foi, mais ou menos, assim:

- A situação económica no país é de tal modo grave, diz o deputado da oposição, que já há estudantes universitárias, que para poderem custear os seus estudos, têm de recorrer á prostituição;

A resposta do outro deputado não se fez tardar…

- O Sr. deputado está completamente enganado, e o que eu gostaria de lhe lembrar é que a situação é, felizmente, bem diferente; a evolução académica e cultural no país atingiu um nível de tal modo elevado que agora até as prostitutas são doutoras…

Bom, depois desta historieta algo brejeira, se bem que se possam tirar dela algumas ilações, vou então dizer, sintética e esquematicamente, o que penso sobre este assunto:

- A formação académica no nosso país nos últimos 20 anos, particularmente ao nível do ensino superior, atingiu níveis elevadíssimos;

- A proliferação de diferentes licenciaturas tem-se vindo a apresentar como perfeitamente desajustada face às reais necessidades do mercado de trabalho;

- O número de universidades existentes no país, sendo exagerado, não tem, grande parte delas, atingido nem prestígio nem qualidade académica, factores altamente lesivos para os alunos que aí terminam os seus cursos;

- O fim dos cursos técnico-profissionais, recomeçados recentemente, ajudou a agravar sobremaneira a relação das necessidades ensino/mercado de trabalho;

- As famílias, ainda que não intencionalmente, ao “exigirem” aos seus filhos um curso superior, qualquer que ele fosse, deram um fortíssimo contributo para o actual “statu quo”;

- Os empregadores, com a sua incompreensível e desequilibrada política salarial, penalizando demasiado a classe produtiva em benefício da classe dirigente ou, dito de outra maneira, discriminando, acentuadamente, os doutores dos não doutores;

Resta-me referir qual a ilação que eu retiro da historieta que vos contei inicialmente: os nossos operários, os nossos agricultores, os empregados comerciais, os prestadores de serviços, etc., - as prostitutas do trabalho - , vão ter de continuar a trabalhar, cada qual nas suas funções, com maior formação académica, o que é bom, mas sem que esta formação implique automaticamente, ou garanta um direito reivindicativo, de uma passagem para lugares de chefia ou de direcção como muitas vezes se pensa.

BENFICA FC disse...

Caro MFQ

Em relação ao teu post de hoje, devo dizer que me parece que esses PMs se reciclaram e agora estão todos na ASAE.
BENFICA FC

bordadagua disse...

Caro MFQ
Em 1975 não havia disciplina nem autoridade na maioria das Unidades Militares e quem mandava não era propriamente o Comandante....eram as " comissões dos SUV".
Quanto à sua tentativa de suborno é que a coisa já muda de figura....

Feliz Natal.